As Origens de Montargil

 

Ignora-se quase por completo a história de Montargil anterior ao século XIII,  data da sua fundação como vila e sede de concelho.

Dada a escassez de documentos escritos sobre «as terras de Montargil», restam-nos os testemunhos materiais, que cedem à passagem do tempo.

As fontes arqueológicas acusam a presença de população na época do calcolítico, ou seja, no período de transição da idade da pedra polida para a idade do bronze (3000 - 2000 a.C.)[1]. Sobre os vestígios desta, ergueu-se um Castro lusitano, lugar que serviu também de estadia para os Mouros, aquando da sua ocupação da Península Ibérica (por volta do ano 800).

A história acima referida, apesar de verdadeira, é impossível apurar datas exactas dada a inexistência de fontes escritas, e a quase inexistência de vestígios materiais das épocas referidas.

 

É no rescaldo do período da reconquista cristã que nos surge a fundação da vila de Montargil. Foi El-Rei D. Dinis no ano de 1277 da era cristã (1315 da era romana) que  a fundou e lhe deu o primeiro foral.

Á medida que se ia conquistando terras aos muçulmanos havia necessidade de as repovoar e defender, a fundação desta vila não se enquadra nestes moldes uma vez que a reconquista havia terminado. Porém, o perigo de uma ofensiva muçulmana era viável, tendo em conta que os muçulmanos só foram completamente expulsos da Península Ibérica no século XV, ocupando até 1492 o reino de Granada. Daí que nos séculos XII - XIV, os reis portugueses, nobres e clero procurassem que grupos de pessoas para se fixassem nessas regiões. Os concelhos eram instituídos através de um documento - foral ou carta de foral.

O foral era um documento passado, geralmente, pelo rei que privilegiava os habitantes de um determinado lugar, contendo um conjunto de regras que definiam as suas actividades e a capacidade de elegerem os seus governantes. Estabelecia a área concelhia.

O foral estabelecia os direitos e deveres dos vizinhos (moradores), as rendas a pagar, os serviços a prestar ao rei e os limites do território que constituía o concelho. O pelourinho era um dos símbolos do poder do concelho. Situava-se geralmente num local central.

O foral outorgado por D. Dinis no ano de 1277, foi de grande importância para a região alentejana, tendo por objectivos povoar, explorar as terras e defender o território. Para melhor desempenhar estas funções, o rei D. Dinis mandou construir sobre as ruínas da fortaleza lusitana e mourisca, um castelo medieval - o castelo de Montargil.

O general João de Almeida em 1947 dá-nos as coordenadas do castelo: «No cimo do outeiro, cota de 104 m, em que está edificada a antiga vila de Montargil, que se levanta a 0,5 Km a poente da margem direita da ribeira do sor». O que de facto existiu não foi um castelo, mas uma castela, isto é, uma pequena fortificação militar com objectivos puramente defensivos. Nos documentos das chancelarias de D. Dinis aparece referências á existência desta fortificação a que o tabelião designa por castelo, contudo pelas funções que ele lhe atribui  facilmente chegamos à conclusão que não se tratava de uma castelo, mas sim de uma castela ( de dimensões bem menores e com funções puramente defensivas).

Sobre a origem do nome Montargil existem várias versões todas elas credíveis:

 

a)                             Montargis, pelo facto do Alentejo ter sido povoado pelos nossos primeiros reis, que para o efeito deram muitas terras aos cruzados que passavam pelo nosso país. Existindo em França uma cidade chamada Montargis, e sendo alguns desses Cruzados naturais desta região francesa é de presumir que um desses aventureiros fosse de Montargis e por ser senhor desta povoação ou simplesmente morador dela, impusesse o nome a esta vila. Esta versão é credível, uma vez que nas proximidades desta vila, em Montalvo do sor estabeleceu-se uma colónia de francos.

 

b)                             Monte Argila , visto a constituição geológica do terreno em que assenta ser de barro

 

 

c)                             Monte Argel, significando Monte do Infeliz, porque Argel significava infeliz. (pouco provável)

 

Hipótese A

 

O nome de Montargil conduz a fundação da vila não ao tempo de D. Dinis, mas ao tempo de D. Sancho I I. Este rei faz a doação de Montalvo do Sor aos francos, anterior à fundação enquanto localidade ( 1223 -1245). Esta doação surge na sequência da preciosa ajuda que os cruzados de Montargis haviam dado na reconquista cristã. O objectivo da doação, a julgar pelas outras feitas seria não só recompensar os cruzados como manté-los nas terras doadas defendendo esta terra de possíveis ataques mouros, que nesta época eram uma constante.

         Entrando no domínio da especulação, podemos mesmo admitir que a terra doada por D. Sancho II aos francos iria da zona de Montalvo do Sor até à região mais tarde denominada de Montargil. Sendo esta última a zona mais elevada, era sem dúvida o local indicado para erguer uma castela, local que já tinha sido utilizado por povos anteriores.

 

        Hipótese B

 

        Algo que nos possa intrigar é o facto de desde o século XV o Montargil aparece sempre referido não como Montarguis, mas monte arguil, o que nos leva a aceitar a versão de monte argila.

 

Montargil viu-lhe ser concedidos três forais: o primeiro em 1277 por D. Dinis, o segundo em 1372 por D. Fernando e o terceiro, já por um rei da segunda dinastia, D. Manuel I em 1518.

 

A julgar pelos poucos documentos já lidos, Montargil gozou de alguma prosperidade a nível populacional até ao século XIV. A vila parece ter sido bastante afectada pelos acontecimentos deste século : a peste negra e a crise dinástica de 1383 - 1385. O certo é que quase durante um século não são encontradas quaisquer referências à vila, a não ser em termos de passagem doa almocreves. Apenas iremos encontrar essa referência nas chancelarias de D. João II, contudo vamos encontrá-la numa situação de completo abandono. D. João II em 1487 manda povoar esta região quase desértica, uma vez que os mercadores tinham medo de passar aqui afirmando que « monte arguil he um monte hermo e he um luguar mui afastado de povoaçom». O rei manda repovoar esta terra dando privilégios a quem mantiver as suas casas nesta região, isentando estes moradores de terem cavalos e armas para servirem o rei. O rei aponta no mínimo trinta homens.

Interessante também será perceber qual a importância que Montargil assumia no domínio comercial do Portugal Medieval. Das referências que aparecem durante o século XIV a Montargil, as chancelarias de D. João I referem-na varíadas vezes mas apenas como ponto de passagem de mercadorias. A sua situação de rota de passagem parece ter sido alterada no decorrer do século XV com o aumento do comércio, a ponto do rei mandar repovoar esta terra para segurança dos mercadores.

Quais as razões que moveram el rei D. João II a tomar tal medida?

Montargil foi sede de concelho, daí terem-lhe sido outorgadas três forais. Esta posição de sede manteve-se até 1836. Nesta data, Montargil sofreu mudanças administrativas. Deixou de pertencer ao Ribatejo, onde pertencia desde a sua fundação. Desmembrada da província ribatejana foi integrada no concelho de Avis, a partir desta data perdeu o estatuto de concelho e passou a freguesia, o qual mantém até hoje. Só mais tarde em 1871 passou a fazer parte do concelho de Ponte de Sor.

 

 

 

 Pedro Cerîaco

  
 


[1] - Vide João de Almeida, Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1947, p. 175.